Avaliação de O IDIOTA, de Dostoievski

Para quem não está habituado com a leitura de romances russos, é comum se deparar com dois “problemas” logo de cara:

  1. a quantidade de personagens;
  2. os nomes e apelidos dos personagens.

Sabendo disso, comecei a leitura de O IDIOTA com um caderno para anotações ao lado do livro. Além dos nomes, é importante anotar os apelidos também.

Eu já havia lido inúmeras indicações desse livro, todas falando muito bem. Confesso que, para mim, a leitura de clássicos é sempre trabalhosa. E com esse não foi muito diferente. A disciplina quase religiosa me fazia avançar nas páginas dia após dia, mas sem o encantamento que outras leituras já me proporcionaram.

Assim como foi com Moby Dick, eu encontrei o refúgio certo nas orientações do professor José Monir Nasser. Ao estudar essa obra, ele forneceu um resumo aos alunos do curso “Expedições pelo mundo da cultura” e traçou um panorama geral da obra. Santa ajuda! O link da palestra transcrita está abaixo, bem como os links dos áudios e o resumo usado nessa palestra.

Dito isso, vamos ao livro. Não peguei a melhor tradução, li numa edição de livro digital bem baratinha da CENTAUR e que estava cheia de erros de digitação (parece documento que é escaneado e troca as letras). Os termos usados nem sempre ajudavam também, um português menos usual. O tradutor foi um português chamado A. Augusto dos Santos.

Se você pretende conhecer a obra e está com pouco dinheiro, a relação custo-benefício até vale, porque o livro foi bem barato mesmo. Mas se prefere uma tradução mais refinada, procure edições como a da editora 34, com tradução do Paulo Bezerra.

A trama gira em torno do príncipe Míchkin, que está voltando da Suíça após um tratamento de saúde (esquizofrenia). Logo fica claro ao leitor que o título não pode ser interpretado literalmente, ou pelo menos não deve ser tomado no sentido que nós, brasileiros, tomamos ao chamar alguém de “idiota”. O príncipe Míchkin é ingênuo, mas extremamente justo e com elevada sensibilidade para alguns assuntos, embora lhe falte malícia em tantos outros.

O livro trata de relacionamentos de ponta a ponta. Algumas vezes achei estranho o comportamento e a reação de alguns personagens diante de algumas situações. Apesar de ser outro país e outra época, o leitor tenta entender cada angústia, cada insegurança, e nem sempre isso está explícito.

Ao final, você percebe que a leitura foi como correr uma maratona: a trajetória toda só faz sentido quando você conclui a empreitada.

Site com áudios e textos do professor José Monir Nasser: https://www.monir.com.br/index.php/drama/11-jose-monir-nasser

Site com resumo e palestra sobre o livro O Idiota: https://goo.gl/k2aXYR

Site com palestras transcritas do projeto Expedições pelo Mundo da Cultura: https://www.sesipr.org.br/cultura/jose-monir-nasser-e-homenageado-no-teatro-sesi—campus-da-industria-1-14094-247610.shtml

Segunda edição de palestras transcritas do projeto Expedições pelo Mundo da Cultura: https://www.sesipr.org.br/cultura/literatura/novas-expedicoes-pelo-mundo-da-cultura-1-27853-367455.shtml

A CIDADE DAS PALAVRAS, por Alberto Manguel

Na introdução do livro o autor fala que teve “…uma vida de leituras aleatórias (que) me legou uma espécie de livro de citações em que reencontro meus próprios pensamentos nas palavras dos outros”.

Isso resume bem o que o leitor vai encontrar nesse livro. Pelos títulos dos capítulos (abaixo) também é possível ter noção sobre essa “aleatoriedade” que o autor fala, mas Manguel é um mestre em tecer de forma habilidosa os pontos que interligam os assuntos.

A voz de Cassandra
As tabuletas de Gilgamesh
Os tijolos de Babel
Os livros de Dom Quixote
As telas de Hal

O resultado final é uma obra primorosa. Assim como “O leitor como metáfora”, Manguel consegue divagar por assuntos diversos para tratar de literatura, livros, expressões, idiomas e histórias. Excelente!

GENTE INDEPENDENTE, por Hálldor Laxness


Islândia, início do século XX. O camponês Bjartur Jonsson compra um terreno para criar seu próprio rebanho de ovelhas, depois de 18 anos trabalhando para o intendente de Myri. O local é chamado de Casa Estival.

O local de sua casa é alvo de boatos da população local como sendo assombrado por espíritos de lendas antigas. A partir desse cenário, o autor retrata a vida de Bjartur e seus filhos, as negociações com os moradores, os dilemas, a relação com os filhos.

Bjartur tem uma necessidade quase doentia de se manter “independente”, sem depender dos outros para se manter. A ideia de ser “gente independente” dá rumo à maior parte das decisões tomadas pelo patriarca da Casa Estival.

A filha Ásta Sollilja divide as atenções do leitor com o protagonista. Além das relações afetivas, a trama permite refletir sobre o sistema de trabalho vigente na época, guerra, poder, bancos e a eterna busca por prosperidade.

Leitura recomendadíssima.

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HISTÓRIAS APÓCRIFAS, por Karel Čapek

Karel Čapek (pronuncia-se Kárel Tchápek) foi um escritor tcheco nascido em 9 de janeiro de 1890, em Malé Svatonovice, nordeste da Boêmia – à época, parte do Império Austro-Húngaro; hoje, da República Tcheca.

O livro possui 29 textos que tratam de situações inusitadas, com eventos envolvendo desde a Grécia Antiga até personagens bíblicos e das obras de Shakespeare. O livro original Apokryfy (Apócrifos) possuía somente 5 textos que recriavam situações bíblicas em tom de paródia.

Apesar do tom voltado ao humor, as histórias carregam um elemento filosófico que permite ao leitor refletir sobre a questão principal. O texto que trata sobre a prisão de Jesus e o receio de Lázaro em ir até seu Salvador mostra bem a sutileza e a criatividade do autor em abordar o tema. Lázaro, que havia sido ressuscitado por Jesus, teme o que pode acontecer caso vá até Ele.

Vários textos surpreendem pelo desfecho criativo. Um livro bem escrito e com muita originalidade.

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DIRETO DE PARIS, por Milton Blay

Esse livro traz relatos do brasileiro Milton Blay e suas experiências na França, país onde reside há muitos anos.

De sorvete a políticos (brasileiros e estrangeiros), de história a música, da queda do muro de Berlim ao período de ditadura no Brasil, o autor percorre eventos (não em ordem cronológica, o que deixa a leitura ainda mais divertida) diversos, em muitos períodos e envolvendo muitas personalidades.

O livro não é exatamente sobre a França, mas sim sobre as experiências do autor no país. Logo, não há descrições detalhadas sobre o povo francês ou longas explanações históricas, como o próprio autor deixa claro logo no início. O foco está no que Milton Blay viu, sentiu e viveu em terras francesas.

Uma excelente opção de leitura para “viajar” com o autor.

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O Pai Nosso, de Karl Barth

Karl Barth desvenda a principal oração de Jesus segundo a visão dos reformadores (Lutero e Calvino).

“É uma bela coisa que o perdão humano seja uma necessidade quase física. À luz do perdão divino, nós vemos estas pobres criaturas que são nossos ofensores, e mesmo nos casos difíceis, pensamos: isto não é tão grave. Não nos detenhamos nas ofensas que nos têm sido feitas, nem sejamos complacentes com elas. Tenhamos um pouco de humor a respeito de nossos ofensores. Tenhamos pelos outros este pequeno movimento de perdão, de liberdade. Não é necessário ver neste caso uma peça da armadura moral de um bom cavaleiro cristão.Não é nem um capacete, nem um sabre, que poderiam nos tornar arrogantes e fortes, mas alguma coisa que deve ser natural. Aquele que não tiver esta pequena liberdade, não será acessível ao perdão divino.” – trecho “assim como nós temos perdoado aos nossos devedores”

Apesar do livro ser uma preciosidade segundo a visão teológica, a edição deixa a desejar. Uma cuidadosa revisão ortográfica é necessária, pois a obra apresenta problemas em vários trechos. A tradução também não parece ser das melhores, com algumas expressões bem esquisitas. Mesmo assim, vale a leitura.

PEQUENO TEATRO DA CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL, por Dennis Andrade

Confesso que duvidei quando vi que o livro tinha somente 66 páginas. Eu vi tanta gente falando tão bem desse livro, será que é tudo isso mesmo?

O livro é composto de uma série de atos ou cenas (13, no total), cada uma relativa a um determinado período histórico.

As épocas abordadas são:

I. PRÉ-HISTÓRIA – Das Pedras às Letras

II. MESOPOTÂMIA – Das Letras às Leis

III. PERÍODO CLÁSSICO – Das Leis à Cultura

IV. ANTIGUIDADE – Da Cultura à Barbárie

V. FEUDALISMO – D a Barbárie às Nações

VI. IDADE MÉDIA – Das Nações ao Absolutismo

VII. RENASCIMENTO – Do Absolutismo à Burguesia

VIII. REVOLUÇÕES – Da Burguesia aos Estados Nacionais

IX. LIBERDADE – Dos Estados Nacionais à Prosperidade

X. TOTALITARISMO – Da Prosperidade à Servidão

XI. GLOBALISMO – Da Servidão aos Metacapitalistas

XII. DIGITAL – Dos Metacapitalistas à Internet

XIII. FUTURO – Da Internet e Além

Uma breve introdução faz um apanhado geral do período a ser tratado, e em seguida o diálogo mostra uma situação a ser analisada e refletida.

Logo no início o autor nos fornece uma tabela com a lista de personagens de cada ato.

A forma como o livro foi escrito é muito criativa. O autor conseguiu fazer uma obra profunda e muito interessante, além de versátil, já que pode ser usada por professores em peças de teatro com os alunos. Curto o bastante para ser lido em um dia, e profundo o bastante para deixar o leitor refletindo. Para ler e reler.

O QUE O COVID-19 NOS ENSINA SOBRE ROTINA

Imagine uma garota órfã com muita imaginação. Esse basicamente é o tema da série Anne de Green Gables (no original Anne with an E), baseada no livro escrito em 1908 pela escritora canadense Lucy Maud Montgomery.

A história trata de um casal de irmãos que adota uma garota órfã de 11 anos de idade. Os devaneios causados pela imaginação da protagonista acompanhados de uma boa dose de otimismo em relação à vida são a marca registrada da personagem.

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Em um trecho do livro, a garota é enviada à escola dominical para “aprender a orar”, de acordo com a vontade de sua responsável, Marilla. Ao retornar da manhã de estudos na igreja e ser questionada sobre como foi a aula, a garota informa que se sentiu entediada, pois achou que tudo era feito sem muita vontade, e parecia que até as orações eram feitas de forma mecânica e repetitiva.

Sob o olhar preocupado de sua tutora, Anne continua seu relato e afirma ter se sentado ao lado da janela, o que “foi ótimo, pois assim eu podia ficar olhando para o jardim”. Enquanto apreciava as árvores do jardim, por várias vezes ela exclamou “Oh, obrigado, Deus”.

“Espero que você não tenha dito isso em voz alta”, disse Marilla, embora no fundo ela mesmo tenha se identificado com o que a jovem dissera sobre a escola dominical.

O trecho que trata de oração é particularmente interessante, já que o próprio Jesus ao nos ensinar a orar diz: quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai que vê em secreto te recompensará (MT 6;6).

O ensinamento de Jesus sugere que a oração é, antes de tudo, um ato de intimidade com Deus. “Entra no teu quarto e fecha a porta”. Isso demonstra confiança, cumplicidade. Ninguém se tranca num espaço fechado com um estranho, muito menos abre seu coração para ele.

O cumprimento de ritos pode nos levar à mera repetição de atos, e é justamente aí que perdemos o significado que justifica o ritual. Paradoxalmente, o rito é criado para algo importante que depois parece perder a importância quando o mesmo rito é posto em prática.

Isso não quer dizer que toda oração feita seguindo ritos e tradições pode ser julgada como um ato desprovido de valor e essência. As instituições religiosas seguem ritos e tradições sabiamente, a meu ver, dado o valor de tais ritos, e isso pode levar à mecanização de atos devido à repetição exigida no seu cumprimento, mas não se pode afirmar que todas as ações contidas nos ritos sejam feitas de forma mecânica e sem consciência. Estamos tratando de algo pessoal, que depende do tratamento e da importância que cada um atribui ao realizar, como a higiene. Ao entrar num restaurante, é bem provável (muito provável, por sinal) que nem todas as pessoas ali tenham lavado as mãos antes da refeição. Então é razoável afirmar que provavelmente haja ali alguém que não tenha seguido as orientações de higiene desejáveis. Mas não podemos aformar que todas as pessoas não lavaram as mãos, ou que em todos os restaurantes sempre vai haver alguém nessa condição.

Enquanto escrevo esse texto, boa parte das pessoas está em casa sob quarentena. O vírus que ficou conhecido mundialmente como COVID-19 exigiu que os países tomassem atitudes drásticas para conter sua propagação. Isso colocou milhões de pessoas trancadas em suas casas.

Além da preocupação com a situação de modo geral, que envolve saúde pública, manutenção de empregos e possível crise em várias áreas, o período em casa obriga a prática da empatia. Pais e mães estão sentindo na pele (parte da) rotina dos professores e professoras ao ajudar seus filhos com as tarefas de casa. Um amigo indica um restaurante de um conhecido que está fazendo entregas, outro compartilha nas redes sociais um contato de alguém “que pode ajudar nessas horas”.

Assim como a oração, a tarefa realizada no dia a dia pode perder seu brilho pelo excesso de repetições. Um período longe da rotina ajuda a enxergar o valor das ações e repensar nosso dia a dia. Além de fotos do pôr do sol e de vídeo-chamadas em família, esse período em casa está mostrando que a rotina tem valor, mas esconde perigos também.

Que seja um período de aprendizado. Quando as coisas voltarem ao “normal”, caso ironicamente sejamos engolidos pela rotina que torna tudo mecânico e artificial, possamos olhar para a janela que tira nosso foco da rotina e dizer “Oh, Deus, obrigado”. Essa é a minha oração, feita num quarto fechado e nas redes sociais.

Avaliação do livro “O que tem de mais lindo do que isso?”, de Kurt Vonnegut

Nem ótimo, nem ruim. Pra quem viu o discurso da J. K. Rowling, ou do Neil Gaiman, ou até o do David Foster Wallace (todos esses vídeos podem ser facilmente encontrados no youtube), pode gerar uma expectativa que não será atendida no final. Foi o meu caso! Os discursos acima são bem legais, e os discursos do livro são bem inferiores. Não sei se foi limitação minha em entender algumas ironias ou piadas que fariam sentido na época que foram contadas, mas achei bem fraco. Vale como passatempo, mas não é um livro para ser mencionado ou para ser relido.

Link para o vídeo do David Foster Wallace, “Isto é água”: https://www.youtube.com/watch?v=2dlQkMDHD4A

Link para o vídeo do discurso de J. K. Rowling: https://www.youtube.com/watch?v=hFJ603lvatw

Link para o discurso de Neil Gaiman, que também é encontrado como livro: https://www.youtube.com/watch?v=IegzpF4a9bw

Link para o livro “Faça boa arte”, de Neil Gaiman: https://amzn.to/2H2CAWP

DIÁRIO DE UM ESCRITOR NA RÚSSIA, por Flávio Ricardo Vassoler

Eu já havia lido “Os Russos”, livro do autor Angelo Segrillo publicado pela editora Contexto. Fiquei realmente impressionado com o país, sua história e seu povo, e passei a me interessar mais por tudo que envolve a Rússia.

Um dai descobri um vídeo do Flávio Ricardo Vassoler e, por consequência, descobri esse livro escrito durante sua viagem à Rússia na Copa de 2018. Comprei o livro e li bem devagarinho, porque é o tipo de leitura que você não quer que acabe.

O livro tem muitas referências históricas, o que deixa a leitura muito rica em informações. As referências literárias também são muitas. Mas tem de tudo no livro, desde divagações baseadas no pensamento de Dostoiévski até transcrições de conversas com os russos.

A Rússia e seu povo são encantadores, e esse livro deixa isso claro. Não perca a oportunidade de ler essa obra.

Para adquirir a obra, acesse: https://amzn.to/2Ghh3JF

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